Sábado, 22.12.12

Persuasão - Opinião

 

 É em Persuasão, o último romance acabado de Jane Austen, que encontramos a sua heroína muito notável - Anne Elliot. Sobre ela escreveu, um dia, a autora: «Ela é quase demasiadamente boa para mim.» No entanto, naquela que é a sua obra mais amadurecida, que descreve uma órbita de afastamento nítida em relação ao tom predominantemente satírico dos seus anteriores romances, Austen trata o carácter e os afectos da protagonista de uma forma que, sem perder totalmente de vista a ironia é, sem sombra de dúvida, muito mais terna, e anuncia já uma percepção mais aberta e dinâmica da personalidade e comportamentos humanos. Uma história de amor, desenvolvida com profundidade e subtileza, proporcina o campo ideal para um estudo reflectido, que sustenta na sua linha de horizonte o complexo relacionamento entre os dois sexos, e no qual homem e mulher surgem como seres moralmente análogos.

 

OPINIÃO

 

Jane Austen foi uma escritora britânica, conhecida pela sua ironia que utilizava para descrever as personagens dos seus romances, entre outras coisas. Em Persuasão, isso não é diferente. Apesar desta ironia ser mais "suave", ela é bem visível na obra. A forma como a autora descreve as personagens, os pensamentos destes, os acontecimentos e a reacção das personagens relativamente a estes, é brilhante. Em poucas páginas e, muitas vezes, em poucas palavras, Jane dá-nos a percepção geral do que era a sociedade no seu tempo e também o que realmente pensava através das falas das personagens (geralmente) principais.

Persuasão é sobre um amor que teve de esperar o melhor momento para ser "concretizado". Mal começamos o livro, são-nos apresentadas as personagens e começamos desde logo, também, a perceber que tipo de pessoas se tratam. Por esse motivo, decidi colocar alguns trechos da obra, de forma a apresentar algumas das várias personagens da história.

 

Sir Walter Elliot, de Kellynch-hall, no Somersetshire, era um homem, que, para se distrair, nunca pegava noutro livro que não fosse o Baronetage; nele encontrava ocupação para uma hora de lazer e consolo numa de aflição; (...) A vaidade era o princípio e o fim da personalidade de Sir Walter Elliot; vaidade pessoal e de situação. Tinha sido excepcionalmente bonito na juventude, e aos cinquenta e quatro anos ainda era um belo homem. (...) Considerava o dom da beleza inferior somente ao da baronia, e Sir Walter Elliot, que reunia estes dois dons, era objecto constante do seu mais caloroso respeito e dedicação. A sua elegância e a sua posição social tinham um peso razoável no seu afecto (...).

 

Sir Walter Elliot é o pai de Elizabeth e Anne Elliot, e de Mary Musgrove. É orgulhoso, teimoso e incapaz de se rebaixar seja porque razão for. Para si, o estatuto é tudo e, por isso, quando descobre que a sua situação financeira não é das melhores, fica tremendamente preocupado com a sua reputação na sociedade. É devido a esses problemas, de onde a história parte. Sir Walter acaba por ser obrigado a arrendar Kellynch-hall, depois de muito se recusar a fazê-lo. A propriedade acaba por ser arrendada aos Croft e é assim que Anne acaba por se reencontrar com um amor antigo, o Capitão Wentworth.

No entanto, antes de falar do Capitão, creio que devo apresentar a heroína da história.

 

Anne, possuidora de uma elegância de espírito e uma doçura de carácter que deveriam tê-la colocado num elevado lugar na consideração de qualquer pessoa dotada de verdadeira compreensão, não era ninguém, nem para o pai nem para a irmã: a sua voz não tinha qualquer peso; a sua conveniência residia em transigir, ceder sempre - era apenas Anne. (...) Alguns anos antes, Anne Elliot tinha sido uma rapariga muito bonita, mas o seu viço dissipava-se cedo - e como, mesmo no apogeu dessa frescura, o pai pouco encontrara que admirar na filha, tão completamente diferentes dos dele eram os seus traços delicados e doces olhos escuros, não podia haver neles, agora que estava estiolada e magra, nada capaz de estimular a sua estima.

 

Anne Elliot é uma jovem de vinte sete ou vinte oito anos, que vive apenas para a família e para satisfazer os que a rodeiam, sendo ignorada pelo seu pai e pela sua irmã mais velha, Elizabeth. Em tempos teve um amor, o Capitão Wentworth mas, por forças exteriores, foi persuadida a afastar-se desse amor. Apesar de ninguém se interessar pelo que pensa ou deseja, Anne mostra ser bastante madura nos seus pensamentos e atitudes. Ela tem a capacidade de poder observar e aperceber-se mais facilmente de coisas que os outros não vêem e, por isso, faz melhores juízos de valor. No entanto, é querida por todos e quando digo todos, refiro-me aos Musgrove, aos Harville e a Lady Russell.

Tal como disse anteriormente, é com o arrendamento de Kellynch-hall aos Croft, que Anne volta a rever o Capitão Wentworth e a reviver o seu amor por ele. Com a sua vinda, muitas questões surgem na mente da jovem bem como o receio do que acontecerá caso se encontrem de novo.

 

Era, nesse tempo, um jovem extraordinariamente simpático, dotado de grande inteligência, denodo e talento (…). O capitão Wentworth não possuía fortuna. Tivera sorte na sua profissão, mas, gastando liberalmente o que liberalmente ganhara, não realizara nada. Tinha no entanto confiança de que em breve seria rico: cheio de vida e ardor, sabia que não tardaria a ter um navio e a encontrar-se numa posição que o conduziria a todas as coisas que queria. Sempre tivera sorte; sabia que continuaria a tê-la. (…) Ele era brilhante, era obstinado.

 

O Capitão Wentworth, irmão da Mrs. Croft e cunhado do Almirante Croft, é um jovem ambicioso que conhecera Anne Elliot no Verão de 1806, quando estava à espera de ser destacado. No entanto, foi união que durou pouco. A única coisa que o Capitão tinha contra si, era o facto de não ter o estatuto social que agradasse a Sir Walter e Lady Russell.

No entanto, passados oito anos e meio, o Capitão voltava a Kellynch-hall, acompanhado da família Croft, rico e como um bom partido fosse para a filha de quem fosse. Anne, que previa não se encontrar com ele de novo, vê os seus planos trocados, quando Mary Musgrove, sua irmã, lhe pede que vá passar uns tempos a sua casa, em Uppercross. Devido a vários acontecimentos, Anne e o Capitão acabam por se tornar estranhos conhecidos e por se verem mais vezes do que qualquer um deles gostaria. A jovem Elliot acaba por se deparar com um Capitão arrogante, indiferente e friamente educado para com ela.

Durante uma boa parte da história, é-nos possível ler as várias oportunidades que o Capitão aproveita para atingir Anne, ainda que indirectamente, com as suas palavras mais do que com as suas atitudes.

Mas, não é só Anne que fica receosa com a chegada do Capitão.

 

Mulher de uma eficiência mais segura do que rápida (…). Era, pessoalmente, dotada de uma integridade rigorosa, reforçada por um delicado sentido de honra; (…) era tão zelosa dos pergaminhos da família e tão aristocrática nas suas ideias acerca do que lhes era devido, como qualquer pessoa de sensibilidade e honestidade poderia ser. Era uma boa mulher, benévola e caridosa, e capaz de amizades fortes; extremamente correcta na sua conduta, rigorosa no seu sentido de decoro e senhora de maneiras que eram consideradas um modelo de boa educação. Tinha um espírito culto e era, geralmente falando, racional e coerente – mas tinha preconceitos no que tocava a linhagem, atribuía à hierarquia e à importância social um valor que a cegava um pouco relativamente aos defeitos daqueles que a possuíam. Viúva, apenas, de um simples cavalheiro, atribuía à dignidade de baronete tudo o que lhe era devido (…).

 

Lady Russell é amiga de Anne e vizinha da família, e apenas deseja o melhor para a menina Elliot, a quem vê como uma filha. É uma senhora digna, bondosa e razoável. No entanto, um dos seus defeitos é achar que o estatuto social é muito importante. Por esse motivo, fica preocupada quando pensa que Anne poderá se encontrar novamente com o Capitão Wentworth e tenta pensar numa forma de o evitar, algo que não consegue fazer logo ao início.

Os vários acontecimentos que vão decorrendo ao longo da obra, acabam por obrigar tanto Anne como o Capitão a descobrirem-se novamente e a si mesmos.

Para mim, foi um livro que soube a pouco. Confesso que, ao contrário de Orgulho e Preconceito, o primeiro livro de Jane Austen que li, este é menos "massudo" devido às suas descrições. É um livro apaixonante, que nos encanta mal o começamos a ler. Não só pela história em si e pelas personagens mas pelo que está por detrás de cada uma delas. O que eu adorei, em especial, foi realmente isso: o que autora tenta explicar através da história. Cada personagem tem a sua razão de ser, as suas atitudes dizem muito e têm um significado também. Nada é escrito ao acaso! Temos, por exemplo, a renitência de Sir Walter em admitir que não tem dinheiro suficiente para continuar a sustentar uma propriedade como Kellynch-hall, a vaidade e arrogância de Elizabeth e de Sir Walter em relação a todos os que os rodeiam, os ataques súbitos de Mary, a conversa do Capitão Harville com Anne sobre a inconstância da mulher e do homem, o retorno de Mr. Elliot ou até mesmo a integração da Viscondessa Dalrymple na família Elliot... São tantos os exemplos que é possível dar!

Eu confesso que chorei quando cheguei ao final do livro. Não só por causa de ser o final mas por nos depararmos com a mesquinhez, a arrogância, a frieza e tantas outras atitudes negativas, de alguns personagens relativamente à felicidade de alguém, que sempre fez tudo por eles. Creio que foi o que mais me custou neste livro e também um dos aspectos que mais me agarrou a ele. Durante toda a história deparamo-nos com atitudes que são parvas e impensáveis, para alguém que tem valores e o mínimo de vergonha na cara, e a autora ao fazê-lo, acaba por nos obrigar, inconscientemente, a pensarmos se o que acabamos de ler é certo ou errado.

Em suma, é um clássico da literatura inglesa que aconselho a todos a ler! Para mim, tornou-se um dos meus favoritos. :)

 

Boas leituras*

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publicado por Diemy* às 12:02 | link do post | comentar

45 Day Book Challenge Day 16

 

 

Livro perturbante



Sinceramente, não me lembro de nenhum livro que tenha lido e que tenha sido perturbante. E vocês, já leram algum? :)



publicado por Diemy* às 11:58 | link do post | comentar

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